29/11/2012

Entre aspas: Quando tem sol


Podia ser assim pra sempre: o sol despudorado me fazendo vestir biquíni, passar protetor solar e colocar a cadeira na beira da piscina. Enquanto tosto a pele e penso na vida, te assisto dar banho nos cachorros. Envolto e entretido pela gangue de quatro ou cinco que segue os seus passos por puro companheirismo. Mesmo com meu medo quando, deitada de costas na canga do calçadão de Copacabana, algum dos cães ignora meu momento zen, pula ao lado ou pisoteia e a gente discute porque tu achas bobagens meu susto se são só os animais. E ri quando eu pulo logo de pé assim que teimosas patas tocam meu território. E eu fico enfezada porque só quero paz e sossego pra colocar as ideias no lugar. Dava, de verdade, pra aceitar - urbaníssima que sou - viver longe da civilização se fosse te admirando à medida que tu olhas o horizonte ou dorme um pouquinho antes de começar o filme para não cochilar durante. Eu, apreciadora nata do ritmo acelerado, do trânsito fulminante (e cheio) e de arranha-céus faria gosto, cozinharia e, feliz, me vejo espalhando protetor solar nas tuas costas com direito a comentários como "nasceu um pêlo aqui" ou "vamos ficar só até às 18h?" quando te olho no espelho, índio cheio de filtro FPS 15 - e a gente ri - caso fosse a rotina um eterno feriadão de tempo bom. Valeria a pena se perder no caminho e entrar num rally por zonas desconhecidas próximas do refúgio, justificaria todas as picadas de borrachudos, pernilongos e insetos que amam meu sangue doce e deixam bolotas como assinatura de passagem se fosse pra ler concentrada a cada banho, soneca ou passeio pelo campo teu. Tudo porque tem sol, vermelho ou em degradê, desses que tu me chamas ali na varanda pra ver e que se vai, tão logo o smartphone se aproxima pra captura do instante. Sem o vento da praia. Com os cachorros em volta, o sustinho quando se aproximam e a paz do silêncio compartilhado reina, ao invés de machucar, filme de memórias assistidas. O desejo constante de que sejam dias ensolarados eternos onde a gente pudesse escutar música alta longe do mundo sem incomodar ninguém e curtir a procrastinação à dois sem culpa, com conversas amenas, filmes suecos e asinhas de frango no forno. Já é um caminho pra felicidade.
 
Da autora: Camila Paier tem duas décadas, um sentimentalismo ambulante que grita no peito e uma voz que raramente se cala. Opinião pra tudo, um namorado lindo, uma família imperfeita (mas feliz) e estuda Jornalismo, enquanto cobiça a psicologia humana, manter o peso saudável que alcançou, morar sozinha e viver do que escreve.

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